SALA DA TEACHER DAIA | Para este novo ano, mais acolhimento

Diz-se tanto da escola como um reflexo da sociedade, então ouso pedir: que neste ano de 2023 nós possamos nos acolher, como membros de uma estrutura viva, orgânica

Por Daiana Souza*

É muito bom escrever no início de um novo ano, cheio de esperança e otimismo. Depois de um período conturbado na história de nosso País, em que vivenciamos tantos episódios de violência e descrença, vimos em nossas lideranças o exemplo do que nós não devemos ser.


Nos separamos de familiares, rompemos laços de amizade e simplesmente não conseguimos mais apenas sentar em uma mesa de almoço de domingo, tamanha hostilidade no ar. Quem não passou por isso nos últimos anos, que conte uma história diferente (o que acho bem difícil). E as escolas não passaram incólumes por esse turbilhão, pois muitas marcas foram deixadas por tudo que passou: pandemia, ensino híbrido, mudanças bruscas de rumo e muitas outras intempéries, inclusive de professores perdendo as estribeiras em sala de aula e pais desesperados, tentando ditar os rumos pedagógicos da escola. Um cenário confuso e um tanto caótico, eu sei.


Como recomeçar? Como dar lugar à esperança depois de tanta confusão? E mais: o que você gostaria de encontrar quando voltasse à escola, daqui a alguns dias? Se você é professor, provavelmente tem algumas inspirações e desejos bem específicos; como pai e mãe, pode ter uma percepção diferente. Mas, se você é aluno, talvez seja pior ainda. Nem sabe direito o que quer, mas tem certeza do que não quer em seu retorno.


Eu sou professora, mãe e aluna. Alegro-me em poder transitar por diferentes ambientes e, apesar de toda a confusão que vimos na área da educação nos últimos tempos, me sinto confortável nesse trânsito.


Não consigo deixar de pensar em uma palavra: acolhimento. Ano passado passei por experiências diversas e vi o quanto é importante pensar em acolher a criança que está na escola, em todos os seus aspectos: em relação ao que ela traz de casa, ao que vive na escola e das relações que professores e funcionários criam com ela ao longo de sua trajetória.


Detalhe: o mesmo acolhimento vale para alunos adolescentes e adultos. Do outro lado, vi como faz diferença acolher um pai que se sente perdido, sem saber o que fazer e nem sempre tomando as decisões mais adequadas. O pai acolhido sai da escola mais tranquilo e seguro. E o professor, acolhido por sua equipe diretiva e por seus colegas, se sente empoderado e não se desespera diante de desafios em sala de aula. Ok, pode até se desesperar de vez em quando, mas a tranquilidade trazida pela acolhida fica maior do que a tristeza produzida pelo desamparo.


Diz-se tanto da escola como um reflexo da sociedade, então ouso pedir: que neste ano de 2023 nós possamos nos acolher, como membros de uma estrutura viva, orgânica, que precisa ser cuidada o tempo todo para existir de maneira sustentável: a nossa escola.


Se queremos mudanças sociais, que comecemos pela escola
; que comecemos por pedir por mais gentileza no trato, por mais abraços ao invés de xingamentos, por mais palavras de incentivo e menos críticas rudes disfarçadas de “construtivas”.


Uma escola não se faz sozinha, crianças não se desenvolvem sozinhas e uma sociedade tampouco se aprimora sozinha. Loris Malaguzzi (1920-1994), pedagogo e professor italiano, nos motiva a refletir: “Fazer uma escola acolhedora (ativa, imaginativa, onde você pode viver, documentável, comunicável, local de investigação, de aprendizagem, de reconhecimento, e de reflexão) onde crianças, educadores e famílias estejam bem, é o nosso objetivo.” Que em 2023 possamos viver em nossas escolas. Nada mais. E Feliz Ano Novo!


*Publicitária e professora de inglês. Daiana Souza escreve quinzenalmente neste espaço. Tem alguma dúvida, comentário ou sugestão a respeito do tema? Utilize os espaços abaixo para comentários